O que significa realmente escutar a si mesmo?

 

Vivemos cercados por opiniões, expectativas, informações e estímulos. Desde cedo, aprendemos a observar o que os outros esperam de nós e, muitas vezes, desenvolvemos uma habilidade considerável para perceber as necessidades alheias. O que nem sempre aprendemos é a reconhecer, com a mesma atenção, aquilo que acontece dentro de nós.

Escutar a si mesmo não significa simplesmente fazer tudo aquilo que temos vontade. Também não significa colocar as próprias necessidades acima das demais pessoas. Escutar-se envolve conseguir perceber sentimentos, desejos, incômodos, conflitos e necessidades antes de reagir automaticamente a eles.

Essa tarefa pode ser mais difícil do que parece. Muitas vezes, aquilo que sentimos não chega até a consciência de maneira clara. Podemos perceber apenas irritação, ansiedade, cansaço ou insatisfação, sem compreender exatamente o que está acontecendo. Em outras situações, sabemos o que sentimos, mas não conseguimos entender por que determinadas situações nos afetam tanto.

A Psicanálise parte justamente da ideia de que nem tudo aquilo que nos movimenta é imediatamente consciente. Nossa história, nossos vínculos e experiências participam da construção de maneiras particulares de interpretar as situações e de nos relacionarmos com nós mesmos e com os outros.

Por isso, determinados acontecimentos podem provocar reações aparentemente desproporcionais, enquanto outros, que poderiam ser considerados importantes, quase não nos mobilizam. Não se trata de estabelecer uma medida universal para as emoções, mas de investigar o significado que determinada experiência possui para cada pessoa.

Escutar-se também implica reconhecer contradições. Podemos desejar algo e, ao mesmo tempo, temer suas consequências. Podemos querer proximidade e também precisar de distância. Podemos desejar mudar e, simultaneamente, sentir segurança naquilo que já conhecemos. Nem sempre existe uma única parte de nós dizendo o que fazer.

É nesse ponto que a escuta pode se tornar uma forma de investigação. Em vez de perguntar apenas “o que eu devo fazer?”, podemos começar a perguntar: “o que estou sentindo?”, “por que isso me afeta dessa maneira?”, “o que essa situação representa para mim?” e “o que se repete nessa história?”.

Compreender não significa encontrar rapidamente uma resposta definitiva. Significa permitir que aquilo que antes parecia apenas confuso possa ganhar palavras, sentidos e novas possibilidades de elaboração.

Escutar a si mesmo, portanto, não é viver voltado exclusivamente para dentro. É construir uma relação mais consciente com aquilo que nos constitui para que nossas escolhas não sejam determinadas apenas por movimentos que ainda não conseguimos compreender.


Por Lúcia Rebelo
Psicanalista Clínica | Neuropsicanalista
Psicanálise Clínica Contemporânea
Integração às Neurociências
www.luciarebelo.com.br 

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