Quando aquilo que se repete merece ser investigado

Há situações que parecem mudar de cenário, de pessoas e de circunstâncias, mas conservam algo conhecido. Uma nova relação apresenta dificuldades semelhantes às anteriores. Um novo trabalho desperta o mesmo sentimento de desvalorização. Uma oportunidade é desejada e, quando finalmente aparece, surge uma vontade inesperada de recuar.

Quando percebemos essas repetições, é comum pensarmos que estamos simplesmente tendo “azar” ou encontrando sempre as pessoas erradas. Em alguns casos, realmente existem circunstâncias externas importantes que precisam ser consideradas. Mas, quando determinados padrões aparecem repetidamente, pode ser interessante perguntar o que também está acontecendo dentro de nós.

A repetição, na perspectiva psicanalítica, não precisa ser entendida como uma escolha consciente. Muitas vezes, repetimos formas de nos relacionar, de reagir e de nos posicionar sem perceber claramente que estamos fazendo isso.

Podemos, por exemplo, buscar aprovação de maneira intensa, evitar conflitos a qualquer custo, assumir responsabilidades excessivas ou permanecer em relações nas quais nossas necessidades ficam constantemente em segundo plano. Essas formas de funcionamento podem ter sido construídas ao longo da história como maneiras de lidar com vínculos e situações que, em algum momento, foram significativos.

Isso não significa que tudo o que vivemos na infância determine nosso presente. A história participa de nossa constituição, mas não funciona como uma sentença. O que aprendemos pode ser revisto, especialmente quando conseguimos reconhecer os padrões que antes pareciam naturais.

A dificuldade está justamente no fato de que aquilo que conhecemos pode oferecer uma sensação de familiaridade, mesmo quando não nos faz bem. O familiar nem sempre é confortável, mas pode parecer menos ameaçador do que aquilo que ainda não sabemos como viver.

Investigar uma repetição não significa procurar culpados. Também não significa responsabilizar a pessoa por tudo aquilo que lhe aconteceu. Significa compreender como experiências anteriores podem participar da maneira como interpretamos situações atuais e como respondemos a elas.

Quando um padrão se torna consciente, abre-se a possibilidade de observá-lo antes de simplesmente reproduzi-lo. Podemos começar a perceber o momento em que determinada reação surge, o que ela tenta proteger e quais outras respostas poderiam ser construídas.

Talvez transformar uma repetição não seja simplesmente fazer o oposto do que fazíamos antes. Pode ser, sobretudo, compreender por que aquele movimento se tornou necessário e descobrir, pouco a pouco, que já não precisamos responder sempre da mesma maneira.

Por Lúcia Rebelo
Psicanalista Clínica | Neuropsicanalista
Psicanálise Clínica Contemporânea
Integração às Neurociências
www.luciarebelo.com.br

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