Por que compreender a própria história pode transformar o presente e o futuro?
Olhar para o passado pode parecer, inicialmente, uma tentativa de encontrar culpados. “Foi por causa da minha infância.” “Minha família fez isso.” “Aquela relação me tornou assim.” Em uma perspectiva psicanalítica, entretanto, compreender a história não precisa significar reduzir o presente ao passado.
Nossa história participa de quem somos. Experiências de cuidado, rejeição, reconhecimento, ausência, conflito e pertencimento podem influenciar aquilo que aprendemos sobre nós mesmos e sobre os outros.
Essas aprendizagens nem sempre permanecem conscientes. Podemos simplesmente perceber que reagimos de determinada maneira, sem saber por que aquele comportamento parece tão automático.
Quando investigamos a história, podemos começar a perceber conexões que antes não estavam claras. Não necessariamente encontraremos uma causa única, mas poderemos compreender melhor a construção de determinados sentimentos e formas de relacionamento.
Esse processo também ajuda a diferenciar passado e presente. Uma experiência atual pode despertar algo antigo, mas isso não significa que a situação atual seja idêntica à anterior.
Reconhecer essa diferença pode ampliar nossas possibilidades de resposta. Em vez de reagir somente ao que está acontecendo agora ou somente ao que isso desperta da nossa história, podemos começar a considerar as duas dimensões.
Compreender não significa justificar tudo o que fizemos ou tudo o que fizeram conosco. Também não significa permanecer preso às experiências anteriores.
Pelo contrário: quando conseguimos reconhecer aquilo que aprendemos, podemos começar a questionar o que ainda faz sentido manter. Algumas formas de proteção foram necessárias em determinado momento, mas podem deixar de ser úteis em outros contextos.
A mudança, nesse sentido, não exige apagar a história. Exige poder relacionar-se com ela de outra maneira.
Talvez seja justamente essa uma das contribuições de um processo analítico: permitir que aquilo que parecia apenas destino possa ser investigado como história, e que aquilo que foi aprendido possa, quando necessário, ser reelaborado.
Por Lúcia Rebelo